Os loucos de minha infância – Valdemar Queiroz

Popota passava sempre às sextas-feiras; era o dia dos pedintes.

− Uma esmola pelo amor de Deus.

Maluca Popota jamais usava o refrão dos mendigos loucos iguais a ela, dos velhos incapazes de ganhar o seu sustento, dos moços que cultivavam feridas nas pernas, nos braços, onde quer que fossem, purulentas, desagradáveis de olhar, fedendo e agredindo narizes. De todos os sem loucura, daqueles de braços, pernas e corpo sadios.

Batia suavemente às portas que se mantinham abertas desde o raiar do sol. Uma grade evitava a entrada de indesejáveis nas casas de gentes sãs. A cidade era pequena, todo mundo conhecia todo mundo. Assaltos, furtos, roubos eram palavras apenas. Sequestros aconteciam nos folhetins, comprados na única papelaria querente de ser livraria, uma vez por semana; podia ser na quarta ou na quinta, a depender do fornecedor da capital, distante dois dias de viagem: um de trem de ferro, outro de vapor, navio pequeno, considerado um luxo para poucos que viajavam a negócio ou por prazer; estes eram poucos.

Batidas leves, até que alguém da casa se dava conta do chamado da louca mansa:

− Tou sem comer desde ontem. Sobrou um resto de pirão ou de farofa pra mim?

Ia juntando o que davam. Dinheiro pouco, quando não havia sobras do de comer. A sexta-feira morria junto com o sol, que se escondia atrás do cemitério local. Popota morava numa meia-água por perto da terra dos mortos.

Luzia Doida era braba. Não respeitava o dia em que os pobres pedintes infestavam as ruas da cidade pacata. Aparecia quando lhe dava na telha, falando alto, cantando trovas, rezando as ladainhas mais sem sentido. Trazia um filho no colo, outro no bucho. Negra bonita, a pele do rosto era lisa, os olhos saltados pareciam enxergar além das barreiras da loucura. Era emprenhada uma vez por ano; contavam-se os seus filhos pelo tempo de sua chegada ao lugar. Quando crescidos, serviam de mão de obra barata nas fazendas e sítios das redondezas.

Pouca gente negava comida ou dinheiro de sua preferência para Luzia Doida. Medo de escândalo, das pragas sempre gritadas em sua voz grave contra aqueles corajosos em recusar seus pedidos, mais parecidos com exigências de pagamento às dívidas que ela dizia cobrar por direito.

− Olha o buraco, Pedrão.

Divertimento inconsequente na volta da escola, muitas vezes quando o sino da Matriz batia as doze badaladas, trazendo a criançada para o almoço pontual, após as lições aborrecidas na sala da escola de D. Petronila, rabugenta, competente iniciadora de aprendizes, querentes ou não dos saberes dos livros repetidores da vida.

Pedrão estacava, dava três passos para trás, contornava o buraco inexistente. Seguia no meio das ruas, evitando buracos onde podia cair e sumir. Paralelepípedos calçavam as avenidas principais, tão poucas que eram. As ruas de canto, onde moravam os pobres, os poucos remediados, eram de terra batida, eram de chão de verdade; vermelho e poeirento no tempo da seca, pardacento e enlameado na época das chuvas que caem em grande parte do ano. Numerosos becos e ruas eram calçados de pedras de cores e tamanhos diferentes. Relva ou capim crescia entre tantas pedras pisadas pelo Pedrão. Parece que nas ruas de terra, ou naquelas cobertas de pedras irregulares, os buracos evitados por Pedrão eram maiores, quem sabe, mais profundos. Abismos, talvez. Temidos pelo louco manso, que não pedia esmolas; tirava seu sustento de uma horta desordenada, das árvores que davam frutos ao redor de sua cabana coberta de palha.

Donata era um lugar comum. Rimava com uma sonata que todos ouviam, quisessem ou não. Percorria as ruas vestida de branco, não tinha dia certo para visitar a cidade. Surgia sem aviso de segunda a sábado, às vezes chegava aos domingos; nesse dia postava-se à porta da igreja matriz, cantando e sorrindo para quem saísse das missas das seis, das oito ou das dez. Cantava mais alto no fim da missa tardia, das dez, rezada por todos que já se sabiam senhores de cantos no reino de Deus. Os demites brancos de Donata repetiam a cor de seu vestido de sempre.

Contritos senhores e senhoras deixavam moedas nas mãos da cantadora. Tinham pressa em esquecer a brancura das roupas e dos dentes da doida conhecida. Tinham pressa em chegar à casa dos amigos não doidos, que ofereciam almoços, retribuíam convites aceitos. A vida seguia sadia, os loucos estavam do lado de lá.

Quietos, ficaram lá longe, às margens. Iguais a Sia Brígida, moradora na estrada tão larga que conduzia ao cemitério, caminho bonito, em ambos os lados cresceram palmeiras imperiais, seculares, plantadas pelos fundadores do arraial, promovido a vila, finalmente cidade; felizmente povoada por poucos reconhecidamente insanos.

O casarão de Sia Brígida ficava em frente à Santa Casa de Misericórdia. As más línguas diziam que era adequada a sua localização, somente os pobres eram atendidos e internados no hospital fronteiro à morada de mais uma louca. Era perto das covas rasas, cavadas pelo coveiro, chamado Ângelo.

As manias de Sia Brígida eram inofensivas. Plantava e regava somente cravos de defunto, flores amarelas de cheiro ativo ao redor de sua casa antiga, enorme, coberta de telhas que tinham sido vermelhas. O tempo pintou-as de cores tristes, combinando com parasitas que insistiam em enfeitar feiamente o telhado da doida. Os cabelos dela eram desgrenhados, porém aos domingos apareciam penteados e reunidos em um coque, amarrado por uma fita roxa.

Pessoas gostavam de passar por perto, para assistir ao trabalho cuidadoso com suas plantas. Conversava com elas, vez por outra dava gritos estridentes, mandando suas plantas enfeitarem as sepulturas de mortos desconhecidos. Criou-se uma crença de que a velha falava em nomes de vivos habitantes da cidade. Não demorava muito os recomendados seguiam para a terra final. Quem escreve estas linhas não pode aparecer, fiel ao ensinamento: o autor sai, deixa as criaturas viverem ao seu bel prazer. Contudo, assustou-se ao lembrar das vezes em que se postou por perto do jardim de Sia erigida, desejoso de que a louca incluísse o seu nome entre os fadados à morte vindoura. Vinha de tristezas, decepções prematuras.

Um terço de contas de cristal pendia do pescoço da louca Brígida. Um terço é composto de várias orações: Creio em Deus Padre, Padre Nossos, Ave Marias. Três terços formam um rosário.

Os loucos do tempo passado não chegavam para formar um terço, quanto mais um rosário. A infância vai ficando cada vez mais longe, muitos dos doidos sumiram, morreram.

Asfalto tomou o lugar dos paralelepípedos, das pedras irregulares, cobriu vários caminhos de terra batida Ficou difícil reconhecer as pegadas dos passantes por tantas estradas. Os doidos marcavam mais fundo, quando pisavam as trilhas de barro, matavam a grama crescente entre pedras, quem sabe, teriam coragem de arrancar os cravos de defunto do jardim de Sia Brígida.

É salutar não lembrar tanto louco escondido, descoberto, adivinhado. Construir uma cerca de estacas pontudas, separando claramente onde fica a loucura, para aceitar um faz de conta prometendo sanidade. Os loucos morreram.

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