Menino sem nome – Valdemar Queiroz

Vítima, não. Desde sempre o menino recusara dó ou piedade. Aos seus ouvidos sempre voltava o dito popular; quem tem pena é galinha. Devolvia o sentimento, provocado ou não; apenas não queria apoio falso e movediço que outros lhe oferecessem. Vaidade, soberba, inteireza, defeito ou qualidade, parecia pouco interessado em definir esse lado muito seu.

A perna mais curta que a outra não o impedia de correr em vez de andar, de subir aos galhos mais altos de todas as árvores que topasse pela frente, de preferência aquelas do quintal enorme da casa grande e velha.

O caminho de casa para a escola não era longo. Contudo, fazia sempre por encompridá-lo, especialmente a ida, cedinho pela manhã, ainda que isso lhe custasse levantar antes dos irmãos, perdendo a companhia deles, quase nunca muito agradável. Era o menor de todos, apelidado raspa de tacho ou fim de rama.

Não se podia dizer que não gostasse da escola; era considerado inteligente, dono de curiosidade aguçada e de algumas habilidades incomuns em crianças de sua idade.

Medo travava-lhe os passos na caminhada diária. Da professora, de seus óculos, da palmatória implacável.

Na cidade pequena, não eram muitas as opções de escolas boas. As públicas eram de qualidade inferior, turmas numerosas e defeitos vários. Três ou quatro particulares para os filhos dos endinheirados ou dos remediados metidos a besta, sonhando para seus rebentos com futuro diferente do que lhes coubera por sina ou praga. Mal remediados eram os pais do menino e seus irmãos.

Sala limitada, mesas sem lustro e cadeiras duras. Quadro-negro preto mesmo, mapas e livros por todos os cantos. A mesa maior, sobre um estrado, marcava a altura e a distância entre mestra e discípulos. Palmatória ao alcance da mão, óculos de lentes grossas diminuíam os olhos miúdos de D. Carlota. O coque de cabelos grisalhos (na época chamava-se mutuca) mantinha-se impecável sob um pente de tartaruga, osso, ou de que diabo fosse (persistência que já os aceitava por perto, sem maiores repulsas ou revoltas, A aceitação da convivência com tantas coisas julgadas adversas talvez fosse a razão da piedade de alguns, rechaçadas com vigor pelo menino sem nome.)

Sexta-feira era um dia particularmente agradável na rotina de estudos, pois havia aula de ciências. O corpo humano já não apresentava tantos segredos, o crânio de algum indigente morrido há muito passava pelas mãos dos alunos mais adiantados. O resto do esqueleto, músculos, aparelhos circulatório, respiratório, digestivo e demais, tudo vinha bem ilustrado nos diversos quadros e livros da professora competente. Instruía seus aprendizes de modo exigente e preciso, ainda que não lhes passasse bem-querer, carinho e outras besteiras necessárias.

Estudar botânica estava parecendo desafio instigante. Além de informações buscadas nos livros, S. Carlota exigia que plantas viessem para a sala de aula pequena: pequenas raízes, caules, folhas, flores e frutos eram analisados minuciosamente. A véspera de sexta-feira surgia atraente: ia-se aos campos que rodeavam a pequena cidade, colher material ilustrativo. Lembrete: cuidado com as plantas venenosas, com as cobras, aranhas; feras maiores não haviam nas matas sempre verdes, distantes pouquíssimos quilômetros do centro do universo em miniatura arranjado por D. Carlota e seus semelhantes. Limpos, ordeiros, arrumados, pontuais, sisudos. Sem muita alegria, porém com a certeza de deveres compridos e cumpridos.

A língua portuguesa merecia atenção muito especial naquela escola particular. Incrível como possa parecer, os estudantes que se aproximavam dos limites finais do curso primário assenhoravam-se de vocabulário em adequação sempre crescente, dentro dos cânones estabelecidos por D. Carlota. Apoiava-se nos nomes de peso na época. Regência, concordância, análise gramatical e sintática forçavam pesadelos na maioria dos poucos aceitos pelos padrões impostos pela mestra. “As armas e os barões assinalados…”. Camões invadia as mentes assustadas, não somente pelos versos difíceis, também pelo peso da palmatória em uso frequente.

Cantava-se um hino patriótico no começo de toda atividade diária, encerrada com o hino nacional, entoado quando o antigo sino da matriz batia as doze badaladas. A música ajudava um pouquinho, mas ai de quem tentasse decorar os versos em e medo que se aproximava do pânico ampliavam os padecimentos daquele projeto de pessoa adulta.

De repente, claro que não foi tão de repente, os olhos de D. Carlota ficaram mais miúdos por trás das lentes grossas de seus óculos de grau: miopia, astigmatismo e todas as doenças que impediam a velha solteirona de enxergar além dos horizontes próximos de seus deveres impostos a si mesma e àquelas crianças, carentes e dependentes de seu saber e poder maiores. Momento de criação espontânea (possível?) de tudo que vinha sendo aprendido, melhor, apreendido. Cada infeliz aluno teria de inventar uma estória. Falada naquele dia, escrita em casa como dever para a semana vindoura.

Tão difícil lembrar, depois de tantos anos. Lábios vermelhos alguns, outros pálidos e descorados por medo da palmatória, dos óculos, dos olhos, da vida presente na sala de aula da professora sabida.

Menino sem nome cresceu. A voz se fez clara, contando a estória de um gato, (teria sido de um cão?). Tinha princípio, meio e fim. Silêncio dos colegas, dos irmãos, da própria D. Carlota. Surpresa, surpreendida pelo contar de uma estória.

Não foi preciso esperar pela semana vindoura. A bomba explodiu antes. A estória simples narrada pelo menino não pertencia a qualquer dos autores conhecidos. Era anônima, daquelas que se contam à beira dos velhos fogões de lenha, ou das fogueiras armadas para as festas de Santo Antônio, São João e São Pedro no mês de junho de outrora.

A palavra jogada na cara do menino era nova, inteiramente desconhecida. Não apenas por ele, toda a classe ignorava o seu peso, atirado sobre o arremedo de aprendiz de narrador. Plágio. Roubo.

Roubo e furto eram expressões sabidas, embora os fatos acontecessem raramente no mundo conhecido até então. O apelido de “capenguinha” foi substituído por um palavrão: plagiador. Acompanhou o menino durante meses, quando era alvo de algumas vinganças de colegas e de irmãos. Novas levas de alunos chegavam a cada começo de ano, pouco numerosas, porém de boa qualidade. Esquecia-se o plágio e seu autor por certo tempo.

A amplidão que o constrangia e amarrava às árvores da infância perderam-se, foram cortadas, deixando raízes apenas, adubadas por muito suor. Por muito sangue.